Página 136-138 do Livro Atenção Plena para Iniciantes
Estamos sempre tentando chegar a algum outro lugar. Temos uma forte necessidade de estar a caminho de algum momento melhor, alguma época melhor, quando tudo vai começar a dar certo. Podemos ficar impacientes e obcecados com muita facilidade. Claro que isso nos impede de estar onde já estamos. O exemplo clássico é a criança que quer acelerar a saída da borboleta do casulo. Assim, inocentemente, ela descasca a crisálida, destruindo-a, sem qualquer compreensão de que as coisas se desenrolam em seu tempo.

A paciência é realmente uma atitude maravilhosa para trazer à prática da atenção plena, porque a prática já envolve, em algum sentido fundamental, sair totalmente do tempo. Quando estamos falando sobre o momento presente, estamos falando sobre agora. Estamos falando sobre o tempo “fora do relógio”. Todos tivemos momentos assim. Na verdade, não temos nada além de momentos assim, mas ignoramos quase todos e apenas uma vez na vida e outra na morte experimentamos um momento desse tipo, quando parece que o tempo parou.
Mas na verdade podemos aprender a sair do tempo do relógio, a cair na qualidade atemporal do agora, através da prática da atenção plena.
Isso pode nos oferecer bem mais tempo na vida. Por quê? Porque quando estamos atentos e habitamos cada momento, temos, em uma primeira aproximação, um número infinito deles entre o agora e o momento em que vamos morrer. Temos muito tempo para viver. Não há pressa.
Podemos nos lembrar disso periodicamente e, assim, incorporar mais paciência em nossa vida.
Já abordamos o valor dessa atitude. Talvez precisemos evocar nossa mente de principiante repetidas vezes, momento a momento, porque nossas opiniões e áreas de especialização obscurecem muito facilmente nossa capacidade de reconhecer o que não sabemos. Como vimos, repousar na consciência do não saber é incrivelmente importante para vermos com clareza e criatividade e para vivermos com integridade.
Em seu primeiro encontro com este livro e seus áudios, talvez você ainda tivesse uma mente de iniciante. Mas em algum ponto do caminho, e isso é inevitável, você pode perder essa atitude por um tempo.
Talvez com a prática e leitura constante você venha a pensar que sabe algo sobre meditação. Se isso ocorrer, você provavelmente perdeu sua mente de iniciante por um momento. Assim, talvez seja mais sensato manter em mente que qualquer um sabe muito pouco sobre meditação.
Se você encontrar monges e monjas experientes, talvez altos lamas da tradição tibetana ou mestres de outras tradições, eles invariavelmente vão lhe dizer que sabem muito pouco. Eles costumam exibir grande humildade e modéstia. Pode ser que digam: “Você deveria estar estudando com outra pessoa.” Lamas com décadas de prática e ensino em meditação podem dizer: “Na verdade não sei nada.” E não estão brincando nem isso é falsa modéstia – é o sinal de uma mente de iniciante. Um mestre Zen é famoso por ter descrito seus quarenta anos de ensino como “vender água à beira do rio”.
A mente de iniciante é uma atitude. Não significa que você não saiba nada, mas apenas que você é suficientemente espaçoso neste momento para não se deixar capturar pelo que já sabe ou experimentou em face da enormidade do que é desconhecido.
Se você pensar na beleza e na alegria das crianças, parte delas advém do frescor da mente de iniciante. O desafio para nós, adultos, é conseguirmos perceber cada momento e reconhecê-lo como algo novo e, portanto, interessante – afinal, jamais o vimos antes. Se você adotar uma atitude de “Se você viu um momento, já viu todos”, vai ficar muito entediado no cultivo da atenção plena. Claro que mesmo isso não precisa ser o fim da jornada. Você pode simplesmente estar consciente de quão entediado está ao observar sua respiração ou seus pensamentos, por exemplo. E, como vimos, nessa consciência você pode se perguntar:
“A minha consciência do tédio está entediada?” Se você investigar com cuidado, a resposta provavelmente será: “De jeito nenhum.” Sua consciência não é capturada por seu tédio.
Na verdade, com a atitude da mente de iniciante, o tédio pode se tornar algo incrivelmente revelador. Ao observá-lo, você pode constatar que ele se dissolve em algo bem mais interessante, outro estado mental. Isso vale também para praticamente todos os outros estados mentais, inclusive aqueles pelos quais nos sentimos completamente tiranizados ou de que temos tanto medo que nem sequer somos capazes de reconhecer: “Quem, eu? Amedrontado? Assustado? Tenso? Eu, não”” Você consegue ouvir a história do “Eu, não”? Essa é a história do “Eu, sim”.




Deixe um comentário